07/12/2009

...

Se uma pessoa diz a outra que a ama, a própria linguagem supõe a expressão "para sempre". Não tem sentido dizer: - Amo-te, mas provavelmente só durará uns meses, ou uns anos, desde que continues a ser simpática e agradável, ou eu não encontre outra melhor, ou não fiques feia com a idade. Um "amo-te" que implica "só por algum tempo" não é um amor verdadeiro. É antes um "gosto de ti, agradas-me , sinto-me bem contigo, mas de modo algum estou disposto a entregar-me inteiramente, nem a entregar-te a minha vida".
Santamaría Garai

...

Não deves recusar a dor, porque ela te constrói, te marca os limites e te faz crescer por dentro dos teus muros.
Sem ela, não passarias de um projecto do homem que hás-de ser. Ela edifica-te os músculos, a cabeça e o coração, e não existe outra maneira de chegares a ser aquilo que deves vir a ser.
Se não sofresses não haveria ninguém dentro de ti.
Paulo Geraldo

03/12/2009

Diz-lhe que não, diz-lhe que tudo acabou
Que é sempre mais feliz aquele que mais amou
Chega de juras de amor
Promessas de amor eterno
Para algum tempo depois
Voltarmos ao mesmo inferno
Por vezes é mesmo assim
Não há outra solução
Doi muito dizer que sim
Doi menos dizer que não
Diz-lhe que não, diz-lhe que tudo acabou
Que é sempre mais feliz aquele que mais amou
Diz-lhe que chega de ouvir as frases habituais
Chamam-me a maior paixão da vida, coisas banais
Maior ou não pouco importa
Ser a única isso sim
Diz-lhe que não me enganou
Enganou-se ele por mim
Diz-lhe que não, está na hora de acabar
Mas por favor não lhe digas que ainda me viste chorar

27/11/2009

Não sou!

Não sou, porque não faço.
Não sou, porque não sou capaz ou não quero.
Não sou.
Sim. Não sou!
Ser implica Presente, ser Todo.
( ser... mas como dizer o mesmo sem o "ser"?)
Portanto: não Sou.
Pois, somos só porque cá estamos?
Não sou, só isso.
POrtanto, não existo.

Li

02/11/2009

Uma das funções da rádio é espalhar magia: nós não temos cara, temos vozes, e isso ajuda a incendiar o imaginário dos ouvintes. Esta rádio de hoje, coitada, não incendeia absolutamente nada. Põe o ouvinte a um canto e diz-lhe: ouve isto, que não te maça, não te assusta, não te provoca.

António Sérgio ( 1950- 2009 )

28/09/2009

NOvo Circulo

Simplesmente há coisas que não percebo e cada vez mais sei que estou num ambiente onde não me reconheço e não gosto de estar. Realmente quem está mal muda-se e eu começo a acreditar nesta máxima. Sinto que mudei muito, talvez de mais e que tudo agora faz um sentido diferente para mim. Pressinto outras leituras, leituras que estão fora das minhas capacidades e que não pensava serem possiveis.
As pessoas já não se amam, pelo menos da mesma maneira; já não se sentem, já não se entusiasmam com uma voz que não se ouve há semanas. É estranho dizê-lo, mas já se esqueceram, e era suposto ser para sempre. Magoam-se, acotovelam-se e passam, não por cima, mas em cima. Estou fora de água, sim mas não sei onde me perdi. e porquê? a resposta e a culpa são minhas, se fosse menos preocupada com os significdos. seria mais fácil, com certeza.
Estou desanimada; com forças mas desanimada. O mundo que construi, onde habitei anos e anos já não me aconchega e reconforta, cansa-me e extenua-me os sentidos, por uma busca que é só minha.
Sei que tenho de partir. Partir para significar algo noutro lado. há tanto para conhecer e tantas pessoas para servir e amar. Tenho pena mas não me arrependo.
Fui feliz e agradeço a Deus por isso, Ele deu-me o que nunca serei capaz de agradecer. Agora é tempo de pegar e partir.
Obrigada a Todos

14/09/2009

Um pouco de cor

Fotografia: Sandra Pita

=D

" Se porventura lhes acontecesse conhecerem homem mais feliz, com uma gargalhada, do que o sobrinho de Scrooge, a única coisa que posso dizer é que gostaria também de o conhecer. Apresentem-mo e cultivarei essa relação.
É justo, imparcial e nobre ajustamento das coisas que faz com que, enquanto a doença e a tristeza são contagiosas, nada haja no mundo de tão irresistivelmente contagioso como o riso e o bom humor. "

Dickens, Charles (1870)
O Natal do Senhor Scrooge e Os Sinos de Ano Novo, Trad: Lucilia Filipe (2002)p.76

11/09/2009

Ser Feliz ( assim ) não tem preço... :)

10/09/2009

O Brincador

Quando for grande, não quero ser médico, engenheiro ou porfessor.
Não quero trabalhar de manhã, seja no que for.
Quero brincar de manhã á noite, seja com o que for.
Quando for grande, quero ser um brincador.
Ficam, portanto, a saber: não vou para a escola aprender a ser um médico, um engenheiro ou um professor.
Tenho mais em que pensar e muito mais para fazer. Tenho tanto que brincar, como brinca um brincador, muito mais o que sonhar, como sonha um sonhador, e também que imaginar, como imagina um imaginador.
A minha mãe diz que não pode ser, que não é profissão de gente crescida.
E depois acrescenta, a suspirar: “ é assim a vida”.
Custa tanto a acreditar. Pessoas que são capazes, que um dia também foram raparigas e rapazes, mas já não podem brincar.
A vida é assim? Não para mim. Quando for grande, quero ser um brincador.
Brincar e crescer, crescer e brincar, até a morte vir bater àm minha porta.
Depois também, sardanisca verde que continua a rabiar mesmo depois de morta.
Na minha sepultura, vão escrever: “ Aqui jaz um brincador. Era um homem simples e dedicado, muito dado, que se levantava cedo todas as manhãs para ir brincar com as palavras.


?

09/08/2009

sinto que...


Creio que esta dor pequenina nunca vai terminar de me mastigar. São muitos os dias em que acordo e penso que o passado foi lá atrás e que o caminho será mais fácil, mas depois, basta um momento para que tudo perca o sentido. Custa. Apenas custa muito. Sei que tudo sara, que tudo segue o seu caminho, mas sinto que não consigo andar como a maré. Sinto que encalho aí algures nos degraus que se tem que subir, sei lá! o Antes não foi como se esperava e o Depois parece que não chega, está encalhado...... como se esquece? Como se cura uma ferida? esta ferida??

Tudo será melhor algum dia. Só resta saber é qual.....

20/07/2009

Não há fim

Era uma ponte quase em ruínas. Atravessava-se a ponte e do outro lado estava o rio. Vi um velho sentado na ponte, no último pilar, com uma comprida cana de pesca presa entre as mãos. Parei o carro e fui ter com ele. « Os porcos dilatam com o calor», riu o velho apontando com o queixo para um animal enorme, meio afundado na lama, alguns metros abaixo. Se ele não me tivesse dito aquilo pensaria que era um hipopótamo.
Retorqui:
- Deve fazer muito calor neste lugar...
O venho riu-se às gargalhadas. Faltavam-lhe dentes. As gargalhadas, todavia, eram jovens, como se por baixo da pele grossa e enrugada se escondesse um rapaz com a dentadura completa, a cabeleira farta e o rosto liso, ainda imberbe. Explicou-me que, depois da ponte ter sido construida, o leito do rio se desviara umas dezenas de metros para o lado esquerdo, dando origem àquele particular extravio da razão. O rio recusara a ponte. Sempre que chovia a estrada ficava pelas àguas.
- Não há maneira de passar?
O velho encolheu os ombros. Não havia. Não, pelo menos enquanto chovesse, e estávamos em plena estação das chuvas. Fosse como fosse, quase nunca aparecia ninguém naquela estrada.
- Vai dar onde a estrada?
E ele sabia? Voltou a rir-se. O riso dele refrescava a alma, como tomar banho de mangueira após um dia de praia. Não sabia. nunca vira ninguém cruzar o rio vindo do outro lado.
- Então vou ter de voltar para trás?
Irrita-me voltar para trás. Viajo para saber onde as estradas vão dar. Prefiro seguir pelas estradas secundárias. Gosto dos caminhos de terra batida, das picadas abertas a custo entre espinheiras altas. Uma vez, algures no deserto do Namibe, encontrei uma estrada desenhada na rocha. Durante quilómetros e quilómetros o que havia era apenas o corpo exposto de uma rocha lisa, com a mesma cor alucinada dos crepúsculos, batida pelo vento áspero e pelo duro sol. Pequenos paralelepípedos cortados numa pedra escura, e colocados de dez em dez metros de ambos os lados da estrada, traçavam o percurso. Depois reapareceram as dunas, coroadas aqui e ali pelas rijas folhas de uma Welwitchia mirabilis, e o sonho terminou. Da mesma forma que um surfista procura a vida interia a onde perfeita, eu procuro a estrada. Provavelmente era aquela, mas não tenho uma única imagem que comprove a sua existência.
- Quer almoçar comigo?
A proposta apanhou-me de supresa. Disse-lhe que não. Depois corrigi:
- Onde?
Ele informou-se que havia um pequeno restaurante ali perto, mesmo à beira da estrada. Eu não vira restaurante nenhum. O velho desmontou a cana de pesca, arrumou os apetrechos num saco de couro e levantou-se. Mostrou-me a pescaria. Ajudei-o a colocar tudo na bagageira. O restaurante não era logo ali. Ficava a uns bons vinte quilómetros. Chamava-se O Máximo, o que me pareceu uma designação demasiado optimista, até compreender que era o nome do proprietário. O poroprietário, aliás, era ele mesmo, o velho pescador. Máximo mandou grelhar os peixes que trouxera do rio. Estavam bons, acompanhados por batatas cozidas e salada de alface e tomate. Quis saber como era ele para ali, porque decidira construir um restaurante num lugar tão remoto, junto a uma ponte que dava para uum rio. Máximo encolheu os ombros magros. Não fora ele quem construíra o restaurante. Ganhara-o ao jogo. Fora por causa do jogo, fugindo de credores, que se eentranhara no mato, até chegar àquele lugar sem nome. Contou-me isto enquanto almoçávamos, bebendo cerveja morna e sorrindo sempre.
- Quer jogar?
- Não, eu não jogo.
- É uma pena. Tencionava apostar o meu restaurante contra o seu carro. Se perdesse esperava pelo fim das chuvas, atravessava o rio a pé, e sguia viagem. Se ganhasse pegava no carro e voltava para trás, para a vida que deixei...
Eu não queria v0ltar para trás. Não queria regressar à vida que havia deixado. Hesitei um isntante e depois disse-lhe que sim, que estava disposto a jogar, que aceitava a aposta. Os olhos dele brilharam. Tirou dos bolsos das calças um par de dados muito gastos. Reparei que lhe tremiam os dedos, e que tinha as unhas manchadas de nicotina. Venceu-me sem dificuldade. Entreguei-lhe as chaves do carro e pedi um café. SEntia-me de repente muito cansado.
- Enfim é isto o fim?
- Não- respondeu-me Máximo sem perder o sorriso. - Não há fim. O que há são intervalos.
José Eduardo Agualusa
in, PASSAGEIROS EM TRÂNSITO.