27/04/2008

Beijos/Sorrisos/e/afagos




O lenço que me ofertaste

Tinha um coração no meio

Quando ao nosso amor faltaste

Eu fui-me ao lenço e rasguei-o.

Ainda me lembro esse lenço

Vindo do teu seio túmido

Escondi-o ainda húmido

No peito com fogo intenso

Esse acaso, hoje penso

Qual infantil receio,

E orgulhoso gaurdei-o

Lamento a minha loucura.

Porque esse lenço o perjura

Tinha um coração no meio.

Esse coração bordado

Por triste sina era o meu

E por isso ele morreu

Quando o lenço foi rasgado

Foi-se a chama do passado

Pois em cinzas sepultaste

Este amor que atraiçoaste

O que serve a dor incalma

Vesti de luto a minh'alma

Quando ao nosso amor faltaste

Beijos, sorrisos e afagos

Me deste. Hei-de esquecê-los

Pois os teus doces desvelos

Com meus beijos foram pagos

Teus olhos eram dois lagos

Lascivio era o teu seio

Foi tudo efémero enleio

Breve e fugaz ilusão

Magoaste-me o coração

Eu fui-me ao lenço e rasguei-o



Henrique Rêgo

CHUVA - Mariza

As coisas vulgares que há na vida
Não deixam saudades
Só as lembranças que doem
Ou fazem sorrir

Há gente que fica na históriada
história da gente
e outras de quem nem o nome
lembramos ouvir

São emoções que dão vida
à saudade que trago
Aquelas que tive contigo
e acabei por perder

Há dias que marcam a alma
e a vida da gente
e aquele em que tu me deixaste
não posso esquecer

A chuva molhava-me o rosto
Gelado e cansado
As ruas que a cidade tinha
Já eu percorrera

Ai... meu choro de moça perdida
gritava à cidade
que o fogo do amor sob chuva
há instantes morrera

A chuva ouviu e calou
meu segredo à cidade
E eis que ela bate no vidro
Trazendo a saudade

10/04/2008

Ser, estar.
Real.
Ser e estar no real.
O amanhã assim como o ontem, esquecidos. Real é o aqui e não o depois. É o Estar. E o que é o estar mais do que isto agora?
Quero viver no real.
É isto??
Agora??
Estou preparada? É suposto?

Abandonar-me para o vazio adulto e escuro do Agora.

Mas se é isto... este vazio que partilha, não quero.
Arriscar cair.

Perco-me nos abraços frios que absorvem o que não pretendo dizer.
É simples assim. É suposto? Dizem que sim. Sinto que não/sim.
Sabe bem apenas.
É extasiante pertencer ao mundo sem lhe tocar.
É extasiante devorar um outro no agora e depois não sentir.
É extasiante pertencerte sem te conhecer.
É extasiante poder saborear a tua essencia e partir sem ela.
É extasiante a àgua que nos junta e se dissolve no calor do espaço desconhecido.
É extasiante trocar o beijo e guardar o teu. O meu gosto na tua boca.
É?

Se considerar apenas o agora, é brilhantemente aceitável. Mas a receita para fazer estagnar um momento qual é?
Suposto ter encontrado isso algures num livro velhinho?
Suposto reconhecer a mentira antes que ela me fale?
Sabedoria que não possuo.

Mudanças no que conheço de mim.
Flores que estão a nascer na minha mão e que não lhes conheço o tacto.
Medo de não a saber destinguir...

08/04/2008

"Beijo é mais"

Beijo

Um beijo em lábios é que se demora
e tremem no abrir-se a dentes línguas
tão penetrantes quanto línguas podem.
Mais beijo é mais. É boca aberta hiante
para de encher-se ao que se mova nela.
É dentes se apertando delicados.
É língua que na boca se agitando
irá de um corpo inteiro descobrir o gosto
e sobretudo o que se oculta em sombras
e nos recantos em cabelos vive.
É beijo tudo o que de lábios seja
quanto de lábios se deseja.


Jorge de Sena

04/04/2008

03/04/2008

Já é noite, e o frio está em tudo o que se vê

Lá fora ninguém sabe que por dentro há vazio.

porque em todos há um espaço que por medo não se deu

onde a ilusão se esquece do que o medo não previu.



Já é noite e o chão é mais terra para nascer.

A água vai escorrendo entre as mãos a percorrer.

Todo o espaço entre a sombra, entre o espaço que restou

para refazer a vida no que o medo não matou.



Mas onde tudo morre tudo pode renascer...



Em ti vejo o tempo que passou.

Vejo o sangue que correu,

Vejo a força que moveu

Quando tudo parou em ti.

A tempestade que não há em ti

Arrantando para o teu lugar

E é em ti que vou ficar.



Já é dia e a sombra está em tudo o que se vê.

Lá fora ninguem sabe o que a luz pode fazer

Porque a noite foi tão fria que não soube acordar.

A noite foi tão dura e difícil de sarar.



Refrão.



Mas eu descobri a casa onde posso adormecer.

Eu já desvendei o mundo e o tempo de perder

aqui tudo é mais forte e há mais cor no céu maior

em que tudo é tão novo do que pode ser o amor



Mas onde tudo morre tudo volta a nascer...

Refrão



Já é dia e a luz esta em tudo que se vê.

Cá dentro não se ouve o que lá fora faz chover.

A cidade que há em ti encontrei o meu lugar

e é em ti que vou ficar
.
Tiago Bettencourt - O Lugar

22/02/2008

Sobre PAZ


Marte e Vénus, Alegoria da Paz
Louis Jean François Lagréen
Provérbios do Mundo

Contemplar a beleza é rezar.
Não podemos voar com asas alheias.
O ignorante é como um soldado sem asas.
O fardo suportado pelo grupo é uma pluma.
Se não podes ser obediente, não podes aprender nada. A obediência é uma parte da atenção.
Amor é um sonho que não se sonha.

21/02/2008

Direitos para crescer saudável



Todas as crianças com mais de cinco anos têm direitoa desabafar.

Todas as crianças até aos onze ou doze anos têm direito a andar grátis no Carrocel quando estão de férias.

Todas as crianças que andam na escola têm o direito a serem alegres, terem amigos e a brincarem com os outros. Têm o direito a ter uma Professora que não grite com elas.

Todas as crianças têm direito a ver o mar verdadeiro, especialmente em dia de maré vazia.

Todas as crianças têm direito a, pelo menos uma vez na vida, escolher o chocolate que lhes apeteça.

Todas as crianças têm direito a pensar e a sentir como lhes manda o coração, até serem velhas, aí com uns vinte anos.

Todas as crianças têm direito a terem em casa o Pai e a Mãe, os irmãos ( se houver ) e comida. Se o Pai e a Mãe não conseguirem viver juntos têm direito a que cada um deles respeite o outro.

Todas as crianças têm direito a deitarem-se no chão para ver as nuvens passar, imaginando formas de todos os bichos do Mundo combinadas com as coisas que quiserem ( por exemplo, um cão a andar de patins ou uma girafa de orelhas compridas ).

Todas as crianças têm direito a começarem uma colecção não interessa de quê.

Todas as crianças têm direito a chupar o dedo indicador que espetaram num bolo acabado de fazer ou então lamber a colher com que raparam a taça em que ele foi feito.

Todas as crianças têm direito a tentarem manter-se acordadas até tarde numa noite de Verão, na esperança de verem uma estrela cadente e pedirem três desejos ( a justiça devia fazer acontecer sempre pelo menos um ).

Todas as crianças têm direito a comer a fatia do meio das torradasde pão partidas em três.

Todas as crianças têm direito a escrever ou a falar em linguagens inventadas por elas ( ou que julgam inventadas por elas ), como por exemplo a «linguagem dos pês»: «apa linpingupuapagempem dopos pêpês».

Todas as crianças têm direito a imaginar o que vão querer fazer quando forem grandes ( habitualmente coisas extravagantes ) e a perguntarem aos adultos « o que queres ser quando fores pequenino?».

Todas as crianças têm direito a dormir numa cama só sua, sentindo o cheiro da roupa lavada, e a terem um espaço próprio na casa, pelo menos a partir do ano de idade.

Todas as crianças têm direito a passear na rua tentando pisar apenas o empedardo branco ( ou só o preto ); em opção, têm direito a fazer uma viagem contando apenas quantos carros vermelhos passam na faixa contrária.

Todas as crianças meninos têm direito a, pelo menos uma vez na vida, perguntar a uma menina « queres ser minha namorada?» e todas as crianças meninas têm direito a, pelo menos uma vez na vida, responder «sim, quero».

Todas as crianças têm direito a ouvir um adulto contar pelo menos uma destas histórias: Peter Pan, O Principezinho, O Princípe Feliz.

Todas as crianças têm direito a ter alegria suficiente para imaginar coisas boas antes de dormirem e depois, a sonharem com elas.

Todas as crianças têm direito a ter um boneco de peluche preferido, especialmente quando velho, já lavado e mesmo com um olho a menos.

Todas as crianças ( especialmente já adolescentes ) têm direito a usar os ténis preferidos, mesmo que rotos e com cheiro tóxico.

Todas as crianças têm direito a jogar aos polícias e aos ladrões, preferindo inevitavelmente serem ladrões.

Todas as crianças têm direito a ter um colo onde se possam sentar, enroscar como uma concha e receber mimos.

Todas as crianças têm direito a nascer iguais em direitos.

Todas as crianças têm direito a conhecer o sítio onde nasceram e a visitá-lo livremente.

Todas as crinaças têm direito a não ficar sozinhas a chorar.

Todas as crianças têm direito a viver num País que tenha um Ministério da Infância, que verdadeiramente pelo seu crescimento afectivo e bem-estar interior ( sem preconceitos adultocêntricos ou hipocrisias com ares de cromo abrilhantado ).

Todas as crianças têm direito a acreditar que têm direito um adulto que olha por elas e as ama sem condição prévia ( nem que seja Nosso Senhor ).

Todas as crianças têm direito a viver felizes e a ter paz nos seus pensamentos e sentimentos.



STRECHT, Pedro( 2002), Crescer Vazio, Lisboa: Assírio e Alvim.

Fotografia: VAlter Ribeiro.





20/02/2008

POder de ser:


THE KEY

Jackson Pollock
ULISSES

O mito é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus
É um mito brilhante e mudo -
O corpo morto de DEus,
Vivo e desnudo.

Este, que aqui aportou,
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos bastou.
Por não ter vindo foi vindo
E nos criou.

Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade,
E a fecundá-la decorre.
Em baixo, a vida, metade
DE nada, morre.


Mensagem, Fernando Pessoa.