09/08/2009

sinto que...


Creio que esta dor pequenina nunca vai terminar de me mastigar. São muitos os dias em que acordo e penso que o passado foi lá atrás e que o caminho será mais fácil, mas depois, basta um momento para que tudo perca o sentido. Custa. Apenas custa muito. Sei que tudo sara, que tudo segue o seu caminho, mas sinto que não consigo andar como a maré. Sinto que encalho aí algures nos degraus que se tem que subir, sei lá! o Antes não foi como se esperava e o Depois parece que não chega, está encalhado...... como se esquece? Como se cura uma ferida? esta ferida??

Tudo será melhor algum dia. Só resta saber é qual.....

20/07/2009

Não há fim

Era uma ponte quase em ruínas. Atravessava-se a ponte e do outro lado estava o rio. Vi um velho sentado na ponte, no último pilar, com uma comprida cana de pesca presa entre as mãos. Parei o carro e fui ter com ele. « Os porcos dilatam com o calor», riu o velho apontando com o queixo para um animal enorme, meio afundado na lama, alguns metros abaixo. Se ele não me tivesse dito aquilo pensaria que era um hipopótamo.
Retorqui:
- Deve fazer muito calor neste lugar...
O venho riu-se às gargalhadas. Faltavam-lhe dentes. As gargalhadas, todavia, eram jovens, como se por baixo da pele grossa e enrugada se escondesse um rapaz com a dentadura completa, a cabeleira farta e o rosto liso, ainda imberbe. Explicou-me que, depois da ponte ter sido construida, o leito do rio se desviara umas dezenas de metros para o lado esquerdo, dando origem àquele particular extravio da razão. O rio recusara a ponte. Sempre que chovia a estrada ficava pelas àguas.
- Não há maneira de passar?
O velho encolheu os ombros. Não havia. Não, pelo menos enquanto chovesse, e estávamos em plena estação das chuvas. Fosse como fosse, quase nunca aparecia ninguém naquela estrada.
- Vai dar onde a estrada?
E ele sabia? Voltou a rir-se. O riso dele refrescava a alma, como tomar banho de mangueira após um dia de praia. Não sabia. nunca vira ninguém cruzar o rio vindo do outro lado.
- Então vou ter de voltar para trás?
Irrita-me voltar para trás. Viajo para saber onde as estradas vão dar. Prefiro seguir pelas estradas secundárias. Gosto dos caminhos de terra batida, das picadas abertas a custo entre espinheiras altas. Uma vez, algures no deserto do Namibe, encontrei uma estrada desenhada na rocha. Durante quilómetros e quilómetros o que havia era apenas o corpo exposto de uma rocha lisa, com a mesma cor alucinada dos crepúsculos, batida pelo vento áspero e pelo duro sol. Pequenos paralelepípedos cortados numa pedra escura, e colocados de dez em dez metros de ambos os lados da estrada, traçavam o percurso. Depois reapareceram as dunas, coroadas aqui e ali pelas rijas folhas de uma Welwitchia mirabilis, e o sonho terminou. Da mesma forma que um surfista procura a vida interia a onde perfeita, eu procuro a estrada. Provavelmente era aquela, mas não tenho uma única imagem que comprove a sua existência.
- Quer almoçar comigo?
A proposta apanhou-me de supresa. Disse-lhe que não. Depois corrigi:
- Onde?
Ele informou-se que havia um pequeno restaurante ali perto, mesmo à beira da estrada. Eu não vira restaurante nenhum. O velho desmontou a cana de pesca, arrumou os apetrechos num saco de couro e levantou-se. Mostrou-me a pescaria. Ajudei-o a colocar tudo na bagageira. O restaurante não era logo ali. Ficava a uns bons vinte quilómetros. Chamava-se O Máximo, o que me pareceu uma designação demasiado optimista, até compreender que era o nome do proprietário. O poroprietário, aliás, era ele mesmo, o velho pescador. Máximo mandou grelhar os peixes que trouxera do rio. Estavam bons, acompanhados por batatas cozidas e salada de alface e tomate. Quis saber como era ele para ali, porque decidira construir um restaurante num lugar tão remoto, junto a uma ponte que dava para uum rio. Máximo encolheu os ombros magros. Não fora ele quem construíra o restaurante. Ganhara-o ao jogo. Fora por causa do jogo, fugindo de credores, que se eentranhara no mato, até chegar àquele lugar sem nome. Contou-me isto enquanto almoçávamos, bebendo cerveja morna e sorrindo sempre.
- Quer jogar?
- Não, eu não jogo.
- É uma pena. Tencionava apostar o meu restaurante contra o seu carro. Se perdesse esperava pelo fim das chuvas, atravessava o rio a pé, e sguia viagem. Se ganhasse pegava no carro e voltava para trás, para a vida que deixei...
Eu não queria v0ltar para trás. Não queria regressar à vida que havia deixado. Hesitei um isntante e depois disse-lhe que sim, que estava disposto a jogar, que aceitava a aposta. Os olhos dele brilharam. Tirou dos bolsos das calças um par de dados muito gastos. Reparei que lhe tremiam os dedos, e que tinha as unhas manchadas de nicotina. Venceu-me sem dificuldade. Entreguei-lhe as chaves do carro e pedi um café. SEntia-me de repente muito cansado.
- Enfim é isto o fim?
- Não- respondeu-me Máximo sem perder o sorriso. - Não há fim. O que há são intervalos.
José Eduardo Agualusa
in, PASSAGEIROS EM TRÂNSITO.

30/06/2009

ADeus génio


Aos 68 anos, "morte rápida e inesperada"

Morreu a coreógrafa Pina Bausch
30.06.2009 - 14h31 PÚBLICO, Agências

A coreógrafa alemã Pina Bausch morreu hoje aos 68 anos. A autora de "Café Müller", a única peça sua que interpretou, soube há cinco dias que sofria de cancro. O seu estilo expressionista, recebido como controverso, tornou-a a grande dama da dança contemporânea alemã."Pina Bausch morreu esta manhã [no hospital], de uma morte inesperada e rápida, cinco dias depois de lhe ter sido diagnosticado um cancro", informou em comunicado Ursula Popp, a porta-voz do Tanztheater Wuppertal, a formação que a coreógrafa dirigia. "No domingo ela ainda esteve em cena com a companhia, na Ópera de Wuppertal", acrescentou ainda Popp.Figura maior da dança moderna e contemporânea, Bausch era uma criadora consagrada e uma das maiores coreógrafas do mundo. Tendo crescido no hotel-restaurante dos seus pais, sempre se pensou que "Café Müller" era inspirado nessa sua experiência, na sua vida, algo que negou ao PÚBLICO em entrevista em Maio de 2008. "Não tem nada a ver com a minha biografia. Chama-se 'Café Müller' mas não tem nada a ver com o facto de os meus pais terem tido um restaurante", disse. "Esta peça nasceu de um convite para fazer um trabalho à volta do [dramaturgo britânico William] Shakespeare, um trabalho baseado numa passagem do 'Macbeth'. Éramos uns quantos bailarinos, alguns actores e um cantor. Tínhamos 14 dias até à estreia e achei que não era suficiente. Decidi chamar mais algumas pessoas o Gerhard Bohner, Hans Pop, Gigi Caciuleano para uma coreografia que se passasse apenas numa sala, o Café Müller, em que cada um poderia fazer pequenas danças e contar as suas próprias histórias, ou até usar a sua própria música." "No fundo, são quatro diferentes 'Café Müller' que fazemos juntos. Como vê, nada tem de privado ou pessoal.""Café Müller" é, provavelmente, a sua peça mais conhecida, interpretada pela primeira vez em Portugal, há 15 anos, por ocasião da Lisboa 94 - Capital Europeia da Cultura e a convite da Fundação Calouste Gulbenkian, que organizou um ciclo retrospectivo à volta da sua obra. No ano passado, o Centro Cultural de Belém e o Teatro Municipal São Luiz, em Lisboa, organizaram um ciclo de conversas, filmes e três peças: a estreia nacional de "Nefés", sobre Istambul, "Masurca Fogo", feita a partir de uma residência em Lisboa em 1998 e apresentada na altura, e novamente "Café Müller".Reconhecidamente uma figura avessa a entrevistas e a falar em público, disse em entrevista ao PÚBLICO em Maio do ano passado: "Nunca gostei de peças que se desenrolam num só nível; o ambiente das minhas está sempre a mudar, com o fim sempre em aberto. Eu também não sei. Há mais perguntas que respostas. Há muitas perguntas." (ver a entrevista na íntegra em link) Nascida em Solingen, na Alemanha, a 27 de Julho de 1940, começou a estudar dança aos 14 anos na Escola de Folkwang, em Essen, com o coreógrafo Kurt Jooss, um dos fundadores do movimento Ausdruckstanz, uma corrente que combina movimento, música e elementos da arte dramática. A passagem pela conceituada escola de dança norte-americana Juilliard permitiu-lhe o contacto com Anthony Tudor, José Limón e Mary Hinkson. Mais tarde, regressaria à Alemanha para integrar a companhia Folkwang, de Kurt Jooss - assinaria a sua primeira coreografia, "Fragment", sobre música de Béla Bartók em 1968. Em 1969, ascendia ao cargo de directora artística da Folkwang, que acumulava com a coreografia e a dança em palco.A "sua" companhia, o Tanztheater Wuppertal, é-o desde 1973. Começou a ser convidada com regularidade a fazer digressões no estrangeiro e o Tanztheater passou a ser reconhecido como uma das maiores companhias contemporâneas do mundo. Participou no fime de Fellini "O Navio" (1982) e depois em "Fala com Ela", de Pedro Almodóvar (2001). Em 1990, realizou "O Lamento da Imperatriz" e estava a planear fazer um filme com Wim Wenders.No ano passado, foi distinguida com o Prémio Goethe. Bausch foi casada com o cenógrafo holandês Rolf Borzik, que morreu em 1980.

29/06/2009

pois é...

DRAMATURGISTA o que é?

Um dia, representando, enfim, parti um ossinho do pé. Durante alguns anos vivi com um grupo de teatro um casamento que deu em divórcio, mas sem privacidades discutidas em público. No meu quotidiano de então - e no cartão do Sindicato estava escrito que eu era dramaturgista - tentava harmonizar as necessidades de criação literária com as vontades de criação teatral do grupo e que faziam apelo à minha participação também como actor em algumas das suas aventuras, para além de outras responsabilidades. Foi uma bela iniciação. Mas vem isto a propósito de ter partido um ossinho do pé enquanto estava em função. Andei ainda uns dias represenatdo assim, o ossinho fazendo doer como um pormenor caricato a criar desentendimento, e finalmente decidi visitar o hospital muito coxo e chateado. Ao guichet, uma senhora, simpática funcionária, pediu-me os dados para a identificação.
Depois do nome
- Profissão ?- perguntou.
E eu, hesitando um mpouco, respondi
- Dramaturgista.
E disse ela
- Isso é especialidade de psiquiatria, não é? Entre, entre, faça favor de entrar, senhor doutor!
Abel Neves,
in Algures entre a resposta e a interrogação
em volta do teatro
p.16

15/06/2009

sobre nós:

Cair no céu

Este nosso mundo não é aváro de emoções. Podemos queixar-nos de tudo, mas não de monotonia. São as guerras, de grande e pequeno formato, os enfartes cardíacos, são os hippies e o poder da flor ( e o poder negro, também ) são os movimentos da crosta terrestre e os terramotos sociais, são as campanhas presidênciais e os assassínios dos presidentes ou candidatos, são as drogas e as modas, e os cabelos compridos, e sas saias bem-aventuradamente curtas e outra vez longas, e as excursões turísticas, e os atrasos dos comboios, e os computadores que pontualmente preparam a descoberta de qualquer coisa para qualquer dia, e ( porque a lista não acabaria ) cada um de nós neste mundo a querer saber o que cá faz, ou pelo contrário, nada interessado em sabê-lo. Tudo isto, de uma maneira ou de outra nos ocupa. E assim vamos passando o tempo, vagamente inquietos, vagamente preplexos, como actores, que de repente se esqueceram do papel e olham desorientados à espera da deixa que lhes permita tornar a engrenar no texto. É o caso: falta-nos a deixa. (...)
José Saramago, in DESTE MUNDO E DO OUTRO.

14/06/2009

D.Sebastião

Sperai! Caí no areal e na hora adversa
Que Deus concede aos seus
Para o intervalo em que esteja a alma imersa
Em sonhos que são Deus.
Que importa o areal e a morte e a desventura
Se com Deus me guardei?
É O que eu me sonhei que eterno dura,
É Esse que regressarei.
F.P.
Resposta à Pequena Maria de Noronha.

D.Sebastião ( Rei de Portugal )

LOuco, sim, louco porque quis grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.
Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?

F.P.
Pequena lembrança de uma Maria, algures perdida.

01/01/2009

" Para além das conversas de mulheres, são os sonhos qe seguram o mundo na sua órbita
Mas são também os sonhos que lhe fazem uma coroa de luas,
Por isso o céu é o resplendor que existe dentro da cabeça dos homens,
Se não é a cabeça dos homens o próprio e único céu. "
In Memorial do Convento
José Saramago

14/11/2008

Morrer a partir de um orgasmo

Na minha próxima vida quero vivê-la de trás para a frente. Começar morto para despachar logo esse assunto. Depois acordar num lar de idosos e sentir-me melhor a cada dia que passa. Ser expulso porque estou demasiado saudável, ir receber a pensão e começar a trabalhar, receber logo um relógio de ouro no primeiro dia. Trabalhar 40 anos até ser novo o suficiente para gozar a reforma. Divertir-me, embebedar-me e ser de uma forma geral promíscuo, e depois estar pronto para o liceu. Em seguida a primária, fica-se criança e brinca-se. Não temos responsabilidades e ficamos um bébé até nascermos. Por fim, passamos 9 meses a flutuar num spa de luxo com aquecimento central, serviço de quartos à descrição e um quarto maior de dia para dia e depois Voila! Acaba como um orgasmo!

Woody Allen

19/06/2008

Tela em branco:

" 17.

São horas talvez de eu fazer o único esforço de eu olhar para a minha vida. Vejo-me no meio de um deserto imenso. Digo do que ontem literalmente fui, procuro explicar a mim próprio como cheguei aqui. "

Fernando Pessoa
Livro do Desassossego

Tela em branco:

" COnquistei, palmo a pequeno palmo, o terreno interior que nascera meu. Reclamei, espaço a pequeno espaço, o pântano em que me quedara nulo. Pari meu ser infinito, mas tirei-me a ferros de mim mesmo "
Fernando Pessoa
Livro do Desassossego

31/05/2008

Finalmente aconteceu.
Vazio, espaços mortos, lágrimas por dias.
Mágoas passam e o sol vigia por entre a obscuridade,
Traz novas cores, calor para reconfortar
o corpo que mirrou no cinzento da manhã.
O ninho convida ao descanso
E as lembranças ao desespero. O telefone toca
E entendo que o Conviva de Pedra ainda
Não me que chamar. Ainda há um espaço para o encantamento.
Há luz nas ruas; Quando pesadamente o cortinado se afasta, fito.
(Processo continuado que perdura).
Não vejo, olho apenas. Ver não é um procedimento
Válido para quem se quer manter à margem.
No entanto, escuto sons. Vozes distorcidas que guincham
Alegremente em jeito de risos quentes. Sinto.
Um arrepio percorre os meus nervos e auguro
Que nada terminou, mas antes tudo recomeça.
Os lábios, os abraços... a felicidade ainda
Está à espera do seu momento. Prepara-se para o seu
Esplendor. Não se dará de mão beijada. Está a estudar-me.
Agradeço. Compreendo a caminhada.
Acredito agora alegremente.


Li