15/06/2009

sobre nós:

Cair no céu

Este nosso mundo não é aváro de emoções. Podemos queixar-nos de tudo, mas não de monotonia. São as guerras, de grande e pequeno formato, os enfartes cardíacos, são os hippies e o poder da flor ( e o poder negro, também ) são os movimentos da crosta terrestre e os terramotos sociais, são as campanhas presidênciais e os assassínios dos presidentes ou candidatos, são as drogas e as modas, e os cabelos compridos, e sas saias bem-aventuradamente curtas e outra vez longas, e as excursões turísticas, e os atrasos dos comboios, e os computadores que pontualmente preparam a descoberta de qualquer coisa para qualquer dia, e ( porque a lista não acabaria ) cada um de nós neste mundo a querer saber o que cá faz, ou pelo contrário, nada interessado em sabê-lo. Tudo isto, de uma maneira ou de outra nos ocupa. E assim vamos passando o tempo, vagamente inquietos, vagamente preplexos, como actores, que de repente se esqueceram do papel e olham desorientados à espera da deixa que lhes permita tornar a engrenar no texto. É o caso: falta-nos a deixa. (...)
José Saramago, in DESTE MUNDO E DO OUTRO.

Sem comentários: